segunda-feira, 11 de outubro de 2010
ANTÔNIO DE SOUZA NETO
Nasceu na estância paterna, em Capão Seco, no distrito de Povo Novo, da atual cidade de Rio Grande; lá é lembrado pelo CTG General Netto (de Povo Novo). Era filho de José de Sousa Neto, natural de Estreito (São José do Norte), e de Teutônia Bueno, natural de Vacaria. Por parte de pai, era neto de Francisco Sousa, natural de Colônia do Sacramento. O seu bisavô, Francisco de Sousa Soares, fora oficial de Auxiliares no Terço Auxiliar de Colônia do Sacramento e casara, em 1791, com Ana Marques de Sousa na capela da Fortaleza São João.
Descendia, pelo lado materno, do bandeirante João Ramalho, que vivia em São Paulo antes do povoamento e que casou com a índia Bartira (Isabel), filha do cacique Tibiriçá. Também pelo lado materno, descendia do paulista capitão-mor Amador Bueno da Veiga.
Era coronel comandante de legião da Guarda Nacional de Bagé, quando participou da reunião que decidiu pelo início da Revolução Farroupilha em 18 de setembro de 1835, na "Loja Maçônica Filantropia e Liberdade". Organizou, junto com José Neto, Pedro Marques e Ismael Soares da Silva, o corpo de cavalaria farroupilha. Era o general da primeira brigada do exército liberal republicano.
Em 1° de junho de 1836, participou do ataque a Rio Grande sem sucesso. Após a Batalha do Seival, proclamou a República Rio-Grandense, no Campo dos Menezes, a 11 de setembro de 1836. Lutou em diversas batalhas pelos republicanos, tendo comandado o cerco a Porto Alegre, durante vários meses, e a retomada de Rio Pardo, que estava nas mãos dos imperiais.
Em 7 de janeiro de 1837, travou o combate do Candiota, em que foi derrotado por Bento Manuel, mas já no dia 12 de janeiro, em Triunfo, vencia as tropas do coronel Gabriel Gomes, que morreu em combate.
Em abril de 1837 comandou a conquista de Caçapava, recebendo a adesão dos novecentos homens da guarnição imperial ali comandada por João Crisóstomo da Silva, apoderando-se de quinze peças de artilharia, quatro mil armas de infantaria e farta munição de boca e de guerra.Esses recursos possibilitaram a subsequente conquista de Rio Pardo, a 30 do mesmo mês, levando a que o comandante militar da Província, marechal Barreto, respondesse a um Conselho de Guerra.
Em Rio Pardo, em 30 de abril de 1838, junto a Davi Canabarro, Bento Manuel e João Antônio da Silveira, derrotou os legalistas, comandados por Sebastião Barreto Pereira Pinto e os brigadeiros Francisco Xavier da Cunha e Bonifácio Calderón. Em 18 de junho de 1840, acampado perto do Arroio Velhaco, foi atacado de surpresa por Francisco Pedro de Abreu e perdeu diversos homens, inclusive o coronel José de Almeida Corte Real, um dos melhores oficiais farroupilhas.
Abolicionista ferrenho, foi morar no Uruguai após a guerra, com os negros que o acompanharam por livre vontade e onde continuou com a criação de gado.
Retornou à luta em 1851, na Guerra contra Rosas, com sua cavalaria na brigada de Voluntários Rio-Grandenses, organizada inteiramente à sua custa, o que lhe valeu a promoção a brigadeiro Honorário do exército, e a transformação de sua brigada em Brigada de Cavalaria Ligeira.
Voltou ao combate na Guerra contra Aguirre e depois, juntamente com seu exército pessoal, na Guerra do Paraguai. No comando em brigada ligeira fez a vanguarda de Osório na invasão do Paraguai, no Passo da Pátria, em 16 de abril de 1866. Sua brigada ostentava sempre, ao lado da bandeira do Brasil Imperial, o pavilhão tricolor da República Rio-Grandense. Na batalha de Tuiuti, foi importante na defesa do flanco da tropa brasileiro, mas foi ferido a bala e mandado para um hospital em Corrientes, Argentina, onde morreu e foi inicialmente sepultado. Em 1966, no centenário de sua morte, seu corpo foi exumado e transferido para um mausoléu em Bagé.
BENTO GONÇALVES
Incorporado na Companhia de Ordenanças de D. Diogo de Sousa, Bento cedo demonstrou sua vocação, ao engajar-se nas guerrilhas da primeira campanha cisplatina (1811-1812). Ao final da guerra, desincorporado como cabo, estabelece uma fazenda de criação de gado e uma casa de negócios em Cerro Largo, território uruguaio, lá conhece sua futura esposa Caetana Joana Francisca Garcia, com quem se casa em 1814 e tem oito filhos: Perpétua Justa, Joaquim, Bento, Caetano, Leão, Marco Antônio, Maria Angélica e Ana Joaquina.
Na segunda campanha cisplatina (1816-1821), seu prestígio como militar se confirmou. Em 1817 foi nomeado capitão, participou das batalhas em Curales, Las Cañas (1818), Cordovez, Carumbé (1819) e Arroio Olimar (1820). Em 1824 foi promovido a tenente-coronel.
Na Guerra da Cisplatina ou Guerra del Brasil contra as Províncias Unidas do Rio da Prata, foi comandante de cavalaria na batalha de Sarandi, em 12 de outubro de 1825, logo depois foi promovido a coronel de 1a linha. Participou também da Batalha do Ituizangó, também chamada de batalha do Passo do Rosário (20 de Fevereiro de 1827), cobrindo a retirada das tropas brasileiras.
Em 1829, pelos serviços prestados na campanha de 1825-1828 e que terminou com a independência do Uruguai, D. Pedro I nomeou Bento Gonçalves coronel de estado-maior, confiando-lhe o comando do 4° Regimento de Cavalaria de Linha e, no ano seguinte da fronteira meridional. Em 1830 recebeu o diploma da maçonaria.
Em 1834, denunciado como rebelde e acusado de manter entendimentos secretos com Juan Antonio Lavalleja para a separação do Rio Grande do Sul, foi chamado à Corte, junto com João Manuel de Lima e Silva. Defendeu-se perante o ministro da Guerra, foi absolvido e teve recepção triunfal no regresso à província. Os conservadores, no entanto, conseguiram a destituição de Bento Gonçalves do comando militar da Província do Rio Grande.
Foi eleito deputado provincial em 1835 na 1ª legislatura. Em 20 de abril de 1835, em plena sessão de instalação da assembléia provincial, é acusado pelo presidente da província, Antônio Rodrigues Fernandes Braga, de articular a separação do Rio Grande do Sul do restante do Império.
A Revolução Farroupilha iniciou-se em 20 de Setembro de 1835. No dia 25 daquele mês, o chefe militar declarou respeitar o juramento que havia prestado ao código sagrado, ao trono constitucional e à conservação da integridade do império. Em princípio, portanto, o levante não era de caráter separatista mas se dirigia contra o presidente da Província e Comandante das Armas. Mesmo assim, o Império não poderia aceitar a destituição de seus delegados - fosse por golpe ou não. Iniciava-se a luta que se estenderia por dez anos.
Na sua ausência, após retumbante vitória na Batalha do Seival, a República Rio-grandense foi proclamada pelo general Antônio de Sousa Netto em 11 de setembro de 1836.
Bento Gonçalves foi preso na Batalha do Fanfa (3 e 4 de outubro de 1836). Foi mandado para a Corte e depois encarcerado na prisão de Santa Cruz e mais tarde para o Forte da Laje, no Rio de Janeiro.Ali, apesar de preso, conseguiu receber visitas quase diárias de amigos e simpatizantes, também foi apresentado a Garibaldi e Rossetti. Em 15 de março de 1837 em uma tentativa de fuga da prisão, Pedro Boticário não conseguiu passar por uma janela, por ser muito gordo. Em solidariedade Bento Gonçalves também desistiu da fuga, na qual escaparam Onofre Pires e o Coronel Corte Real.
Depois desta tentativa de fuga foi transferido para a Bahia onde ficou preso no Forte do Mar. Lá sofreu uma tentativa de envenenamento, onde morreram um gato e um cachorro.Mesmo preso, foi aclamado presidente em 6 de Novembro de 1836. Permaneceu algum tempo, clandestino, em Itaparica e Salvador, onde teve contato com membros do movimento. Depois de despistar seus perseguidores que achavam que tinha partido para os Estados Unidos em uma corveta. Chegou, via Buenos Aires de volta ao Rio Grande do Sul e em 16 de dezembro de 1837, tomou posse como Presidente da República.
A 29 de Agosto de 1838 lança seu mais importante manifesto aos rio-grandenses onde justifica as irreversíveis decisões tomadas em favor da libertação do seu povo:
“Toma na extensa escala dos estados soberanos o lugar que lhe compete pela suficiência de seus recursos, civilização e naturais riquezas que lhe asseguram o exercício pleno e inteiro de sua independência, eminente soberania e domínio, sem sujeição ou sacrifício da mais pequena parte desta mesma independência ou soberania a outra nação, governo ou potência estranha qualquer.Faz neste momento o que fizeram tantos outros povos por iguais motivos, em circunstâncias idênticas.”
E no trecho final, um juramento importante:
“Bem penetrados da justiça de sua santa causa, confiando primeiro que tudo, no favor do juiz supremo das nações, eles têm jurado por esse mesmo supremo juiz, por sua honra, por tudo que lhes é mais caro, não aceitar do governo do Brasil uma paz ignominiosa que possa desmentir a sua soberania e independência”
Estas palavras têm reflexo mais tarde, quando da assinatura do Tratado de Poncho Verde.
Intrigas internas, num grupo desgastado pela longa guerra, em 1844, induzem Onofre Pires a destratar Bento Gonçalves, chamando-o de assassino (pelo assassinato de Paulino da Fontoura) e ladrão (das aspirações do povo, referindo-se ao teor da Constituição). Bento então convoca Onofre para um duelo, que se realiza em 27 de fevereiro de 1844. Onofre, atingido no duelo, dias depois viria a falecer por complicações advindas do ferimento.
A República Rio-Grandense teve seu fim na Paz de Poncho Verde, em 1º de março de 1845. Luís Alves de Lima e Silva - o Conde de Caxias -, general vitorioso, assumiu a presidência da Província. D. Pedro II, por sua vez, em sua primeira viagem como imperador pelas províncias do Império, foi ao Rio Grande em dezembro de 1845. Ao jovem monarca de vinte anos de idade, apresentou-se Bento Gonçalves, com seu uniforme de coronel e revestido de todas as medalhas com que havia sido condecorado por D. Pedro I, pela atuação nas campanhas militares do Primeiro Reinado.
Após o fim da revolta, Bento Gonçalves retornou para as atividades do campo sem interessar-se mais por política, Morreu dois anos depois, acometido de pleurisia, deixando viúva Caetana Garcia e oito filhos.
Seus restos mortais inicialmente foram sepultados em Pedras Brancas. No final de 1850 Joaquim Gonçalves da Silva exumou os ossos e transferiu para a propriedade de sua família , na estância Cristal, onde permaneceram até setembro de 1893, sob sua guarda. Com a mudança de Joaquim para Bagé, os restos mortais ficaram sob responsabilidade de seu irmão Caetano Gonçalves da Silva e com o falecimento deste, de sua esposa Maria Tomásia Azambuja.
Em 1900 o último responsável por sua guarda doou os despojos para seu primo, Inácio Xavier de Azambuja, que repassou para intendência municipal de Rio Grande, onde hoje repousam no monumento na praça Tamandaré.
CONTRIBUIÇÃO FEMININA NA ÉPOCA DA REVOLUÇÃO FARROUPILHA
Com o início da Revolução Farroupilha a mulher teve sua vida e cotidiano transformados de uma hora para outra. Essas mulheres de costumes calmos viram suas vidas terem um encontro ingrato e arriscado com a guerra. Elas se apresentaram como mulheres firmes tanto no quesito físico quanto no emocional. Porém mesmo as mulheres muito terem ajudado na revolução, não obtiveram muito reconhecimento pela história e quando são abordadas, são colocadas como sombras de seus homens, destituídas de desejos e sentimentos próprios. Nesta época tivemos três exemplos femininos completamente distintos, porém que deixaram marcas na história da Revolução, as estancieiras senhoras que permaneceram na estância tocando a vida econômica e familiar, e as vivandeiras que acompanhavam os soldados nas batalhas e a mulher farroupilha do decênio heróico que teve que de uma forma ou outra figuraram na história do decênio heróico.
Com a ausência dos homens no ambiente familiar devido à revolução, as mulheres tiveram que tomar a frente das casas. Elas se tornaram a cabeça do lar e, por isso, ficaram conhecidas como estanceiras, permaneceram nas estâncias, com a responsabilidade de administrar e cuidar das lidas campeiras, domésticas dos campos e dos negócios de família, além das obrigações de tomar conta do lar e dos filhos sozinhas sem a presença do homem.
Numa época de revolta e de falta de carinho, essas mulheres nunca deixaram a afetividade de lado, pois sempre se reuniam nas estâncias e se uniam para rezar pelos os vivos ou chorarem pelos mortos. Mulheres que eram mães, esposas e filhas que ficaram em casa, esperando com ansiedade o fim desta revolta e que seus homens voltassem sãos e salvos para o seio do lar.
A mulher estancieira foi a que permaneceu na estância, administrando as lides campeiras e domésticas, tomando conta do lar, dos filhos, da estância e cuidando dos negócios do homem ausente, que rezava pelos vivos e chorava os mortos. Era aos olhos de Deus e da sociedade patriarcal - a mãe, a esposa, a filha - permanecendo em casa aguardando ansiosa, o desfecho da guerra e o retorno do guerreiro.
Muitas foram às heroínas desconhecidas, que lograram entrar na história, mas nem sequer seu nome é conhecido, como Caetana, esposa de Bento Gonçalves da Silva e Elautéria, mulher de Manuel Antunes da Porciúncula. Com seus maridos à frente da batalha elas assumiram a casa e o controle dos negócios, oferecendo seu extremo apoio à revolução e aos respectivos maridos. Essas mulheres nunca se incomodaram de estar atrás de seus maridos, pois acreditavam em suas ideologias e não tinham medo de lutar por eles.
A mulher farroupilha, com seu sentimento de compreensão e solidariedade, muito auxiliou o desenvolvimento da semente da República Rio-grandense, fazendo frutificar, em heroísmo, a alma da gente farroupilha. Ela soube avaliar e enfrentar o perigo, não para receá-lo e sim para combate-lo. Esta foi a mais sublime e valorosa lição feminina, raramente descrita com a merecida justiça e homenagem dos pósteros.
A mulher sempre promoveu a mais iluminada unidade de fé, auxiliou a compor as mais importantes páginas da história gaúcha, em meio a grande destruição, acreditou e fez acreditar, que sempre se salva algo dignificante da vida.
A Revolução Farroupilha colocou a mulher num encontro ingrato e arriscado com a vida, porém, por mais ameaçadoras, que se tenham apresentadas às circunstâncias, ela sempre soube manter-se firme: quanto mais a situação era adversa, mais a mulher soube se transformar na forja sagrada das convicções do herói farroupilha.
Mesmo com pouca visibilidade, durante a Revolução Farroupilha tivemos a participação de mulheres que exerceram grande influência na batalha, mulheres que esqueceram suas fragilidades e foram para o campo de batalha ajudar seus homens nos conflitos. Mulheres essas que conseguiram provar que mesmo sendo femininas, eram fortes, ativas, com pensamentos extremamente rápidos e que para defender aquilo em que acreditavam e seus homens faziam de tudo.
A mulher guerreira ficou conhecida por "vivandeira", a "china de soldado", foi à mulher, que acompanhou as tropas em seus deslocamentos e permaneceu nos campos de combate cuidando do soldado.
As vivandeiras eram mulheres que serviam aos homens nas batalhas e se mostravam como figura presente em várias revoltas, não só na Revolução Farroupilha, como também na Guerra do Paraguai. Elas eram tidas como “prostitutas de batalhas”, mulheres que sempre estavam dispostas a acompanhar os soldados tanto nas vitórias quanto nas derrotas, apontando-se como figura marcante para os mesmos e para a história.
Os soldados chamavam essas mulheres de chinas, chinocas ou mesmo prendas, pois a maioria delas era solteira e sem família, apresentando-se como mulheres que, sem família, acabavam por adotar umas as outras para continuar a viver. Mulheres fortes que para sua sobrevivência recolhiam roupas de soldados mortos para vender para outros em troca de comida ou de dinheiro.
As vivandeiras também tratavam dos soldados que se feriam na guerra, e se apresentavam como as verdadeiras heroínas desses homens, esses que ao longo da guerra se sentiam solitários e que, por vezes, ficavam doentes tendo somente a elas como apoio. A companhia das vivandeiras para os soldados, por vezes, era a única distração que eles podiam ter. Essas mulheres que apesar do ambiente de tristeza devido às mortes se empenhavam em animar os homens que elas serviam com festas e contos de histórias.
A sina das chinocas era esperar os homens e ensinar novas chinocas que entravam nesta vida com grandes fantasias de aventuras e uma vida nova sem regras, uma situação nem sempre encontrada. Essas mulheres viviam na esperança da vitória da revolução, a mercê dos amantes, esses que lhes prometiam vantagens materiais, dinheiro, presentes e folganças.
As vivandeiras elas se mostravam como mulheres fortes e de difícil trato, já que só pertenciam aos homens que queriam. Elas tinham conhecimento de todos os arreios, sofriam assim como os soldados, com a chuva, o frio e a fome. Era comum se embriagarem, engalfinharem-se de bêbadas, mordendo e ferindo umas a outras, ou até mesmo indo para outros batalhões sem se justificarem, e sendo, por vezes, raptadas pelos inimigos.
Uma prática comum entre as vivandeiras era o carcheio, isto é, o roubo. Elas despojavam os vencidos ou os mortos para as suas sobrevivências. Com essa prática elas conseguiam se alimentar e faziam um pequeno comércio com os objetos roubados das pessoas.
Uma defesa que estas mulheres encontravam para se proteger de quem as tratavam mal ou as ofendia era a vingança, pois se mostravam rancorosas e guardavam antigas afrontas, gravando na memória perfis, lugares odiados e planejando vingança contra os mesmos.
As vivandeiras pertenciam, em sua maioria, às classes populares, pois tinham etiquetas de uma feminilidade que as mantinham cativas, pois eram de certa forma, masculinizadas. Mulheres de pulso firme que quase sempre sabiam lutar para a própria sobrevivência num mundo em que elas tinham que matar ou morrer para sobreviver, um mundo que não tinha lugar reservado para elas.
A história também registra a mulher farroupilha do decênio heróico, que foi a mulher que, de uma forma ou de outra, figurou na história oficial do decênio heróico. Dentre elas, citamos Anita Garibaldi (Ana Maria de Jesus). Mulher intensamente feminina, ativa, forte de ânimo, de decisões rápidas, uma exímia cavaleira, que despertou em Giuseppe Garibaldi um fortíssimo sentimento, mesmo nos poucos contatos, que tiveram em Santa Catarina, quando da invasão de Laguna pelas tropas farroupilhas, além de Maria Josefa da Fontoura Palmito, que promovia reuniões políticas em sua casa, em Porto Alegre, em apoio a Bento Gonçalves e aos Farrapos, também defendia a libertação dos escravos e tantas outras.
Em 1835, na Província de Rio-Grande não havia escola publica, nem pontes. A população era de 1.500 habitantes entre brancos, índios e escravos. Havia quatorze municípios apenas, comarcas e vilas e poucos jornais. Os ricos mandavam os filhos estudarem na Europa. A grande maioria das mulheres não sabia ler. A capital gaúcha, com 15.000 habitantes, fervilhava. Nas ruas e nas praças aconteciam enfrentamentos entre os grupos, com ferimentos e até mortes. Esse era o clima político de todos os gaúchos do começo de 1835.
As relações intrafamiliares e entre famílias, predominantes na época da Revolução Farroupilha (inicio do séc. XIX) eram muito diferentes das que conhecemos hoje. Podemos classificar a família daquela época como “tradicional”.
A família tradicional era aquela geralmente numerosa, centrada na autoridade do patriarca, mais comum até a primeira metade do séc. XX. Eram considerados “familiares” não só os pais e filhos, mas todo o entorno familiar (avós, tios, primos, etc), e as relações eram baseadas nos conceitos morais e autoritários da época.
A família é um sistema no qual se conjugam valores, crenças, conhecimentos e práticas, formando um modelo explicativo de saúde e doença, através do qual a família desenvolve a sua dinâmica de funcionamento, promovendo a saúde, prevenindo e tratando a doença de seus membros.
Família também pode ser conceituada como uma unidade de pessoas em interação, um sistema semi-aberto, com uma história natural composta por vários estágios, sendo cada um deles correspondente a tarefas específicas.
A partir das diversas concepções de família e de nossa própria vivência familiar, entendemos família como um sistema inserido numa diversidade de contextos e constituído por pessoas que dela fazem parte.
Ao tratarmos da evolução familiar, podemos estabelecer uma diferença entre as famílias do norte e nordeste brasileiro em relação das famílias do sul. Mesmo que a figura paterna permaneça em todos os casos como figura central da família, no sul a figura da mulher (mãe) não é de mera submissão. As circunstâncias típicas da região determinaram que a mulher assumisse papel diferenciado na família, especialmente na questão trabalho.
A condição de fronteira e a maneira como se originou a sociedade sul-rio-grandense, foram determinantes para o surgimento de um tipo de família tradicional, mas com características próprias.
A tardia ocupação do território pelos portugueses e o desinteresse econômico pela região, entre o descobrimento do Brasil e o ano de 1737 (quando foi fundado o forte Jesus – Maria - José) permitiram que o espaço físico fosse ocupado de forma desordenada por todo o tipo de gente que se dedicava à caça de gado para a exportação e tráfico do couro. Eram indígenas, espanhóis, mamelucos, mestiços de toda ordem, ou seja, gente que não constituía laços familiares permanentes e nem se fixava na terra.
A partir da chegada dos açorianos (1752) inicia-se uma alteração social importante, com a fixação num espaço físico, seja com a finalidade de produção agrícola, seja para a exploração da pecuária.
Os açorianos introduzem novo conceito de família: o clã, ou seja, a família era maior do que simplesmente aquela formada por um pai, mãe e filhos. Surge a família que inclui, além de pai, mãe e filhos, os sobrinhos, avós e até alguns “agregados”.
Os colaboradores, chamados peões e serviçais da casa, em muitas situações se integravam à família, não de maneira formal, mas colaborando tanto na educação, quanto nos cuidados das crianças e servindo de espécie de “damas de companhia” ou de “guarda-costas” dos chefes das famílias.
Em razão do tipo de atividade, especialmente no campo, em que lida como boi e com o uso do cavalo, até os escravos eram tratados como “de casa”. O patrão era mais um trabalhador diferente do que ocorria nos engenhos do Nordeste e também nas charqueadas do sul.
As famílias abastadas exerciam grande influencia na igreja e no estado. O setor primeiro do Brasil foi montado por meio de privilégios. Daí o modelo de sesmarias. O Estado se beneficiava com o modelo e um grupo de privilegiados tornava-se senhores da terra, concentrando poder. A figura do coronel, também aqui no estado se estabeleceu, talvez em menor escala se comparando com o Centro e Nordeste Brasileiros, porém, de uma forma geral vamos encontrar os proprietários sendo brancos de origem européia. Aos mestiços, pardos e negros restava a tarefa de peão, de soldado ou escravo.
Na composição do poder, vamos encontrar o poder econômico, o poder militar e o poder político enfeixados na figura do “fazendeiro”, ou estancieiro, no mais das vezes com títulos militares distribuídos de acordo com a quantidade de homens que podia dispor para constituir a força militar que defendia a fronteira.
As famílias ricas diferiam das pobres. As primeiras eram concebidas em torno do economicismo, com o objetivo de manter o poder, especialmente econômico. Eram comuns os casamentos encomendados ou arranjados entre os chefes de famílias poderosas. Nas classes pobres não havia essa preocupação e as uniões se davam de forma menos estável e sem interesse econômico.
No tocante ao casamento, verifica-se que se restringia praticamente às famílias mais abastadas. Os pobres (peões e trabalhadores urbanos) constituíam a família sem que o casamento fosse formalizado. Casar-se era caro e grande parte da população não tinha esse recurso. O controle e o registro dos casamentos eram feitos pela igreja católica.
A exemplo do que ocorria no centro do país, especialmente em são Paulo, aqui também havia muitos filhos não legítimos. O concubinatos era uma prática tolerada e os filhos bastardos eram muitas vezes acolhidos em casa, postura que algumas mulheres adotavam para se fazerem de santas e mostrarem que haviam perdoado os desvios e pecados de seus maridos.
Os casamentos não eram tão precoces, pois praticamente não haviam casamentos de menores de 14 anos, talvez devido até à condição econômica que acabava retardando, seja por não terem condições de sustentar a família por si sós, seja para não dividir demasiadamente as terras entre os herdeiros o que, provocava uma diluição do poder.
Quanto aos escravos as famílias gaúcha não possuíam grande número destes, a maior concentração de escravos se dava nas charqueadas.
As moças ficavam, na nossa estrutura, presas a autoridade paterna. Se pegarmos o direito brasileiro à época das ordenações Filipinas, veremos que era justa causa para deserdação das filhas que elas deitassem com homem fora do lar paterno, porque isso era uma ofensa ao pater. Porém para os rapazes, havia uma maior tolerância. A lei tratava discriminadamente, pois por exemplo, o Código Criminal do Império, punia o adultério não com aquela voracidade das ordenações que mandavam apredejar as mulheres e outras penas originárias dos tempos bíblicos, mas punia o adultério serenamente. Já para o homem ser punido, precisava-se da prova material de que ele tivesse em concubinagem franca com a mulher, pois relações passageiras, pequenos desvios e alguns pecadilhos eram tolerados.
A mulher, que de uma forma geral tinha papel coadjuvante na família. No interior da Província, no entanto, ela se transformou em chefe do lar. A condição de sociedade militarizada, pela necessidade permanente de defesa das fronteiras e das permanentes disputas com os castelhanos, exigia que os homens permanecessem muito tempo envolvidos em campanhas militares, longe das casas. Nesse cenário é que as mulheres assumiam o papel de mandatárias, dirigentes e responsáveis pela faina nas fazendas.
No inicio do século XIX, não havia homens com mais de 14 anos que estivessem alistados em algum exercito regular ou irregular. Cada estância constituía, também, um corpo de combatentes que deixavam as lides campeiras para se incorporar em alguma refrega militar ou em alguma escaramuça com um caudilho uruguaio.
Frutos das “peleias” entre portugueses (gaúchos) e espanhóis (uruguaios e argentinos), era comum existirem prisioneiros nas localidades em que havia fortificações militares.
Na distribuição de tarefas familiares do século XIX, de uma forma geral, vamos encontrar o seguinte:
_ Os homens mais velhos, aqueles a quem não mais era atribuída a tarefa do sustento, ficava reservado o papel de conselheiro, contador de histórias, especialmente para as crianças e supervisor, sem poder de decisão, das lidas do campo. Era ele que ensinava como castrar os animais, tosquiar as ovelhas, curar bicheira, escolher a erva certa para determinado tratamento, aconselhar sobre ações políticas. A opinião do “avô” era sempre respeitada.
_ às mulheres mais velhas ficava reservada a tarefa de supervisão das tarefas da casa. Elas cuidavam da saúde da família ( não havia sistema de saúde naquela época, somente depois do movimento higienista é que surgem os profissionais de saúde). As “velhas” conheciam as propriedades dos chás, dos emplastros e encarregavam-se dos partos, seja na condição de parteira, seja ajudantes para o preparo do ambiente das águas e dos panos necessários. Muitas mulheres mais velhas dominavam os segredos das benzeduras. Elas também exerciam o papel de conselheiras para as moças, especialmente nas questões amorosas. O trabalho de fiar e tecer, para a produção de vestimentas cabia às mulheres.
_ aos homens maduros (pais de família) cabia a tarefa de prover o sustento e fazer crescer o patrimônio. Eles agiam como sensores e controladores da moral. A eles cabia autorizar ou não um namoro ou um casamento que, muitas vezes, eles mesmos se encarregavam de arranjar, sempre com o fim patrimonialista. Exerciam, na família, o papel central que era dividido com a esposa ou irmã quando se ausentava para cumprir a função de militar nas revoluções, ou outras refregas. Não tinham ingerência nas questões “da casa”, isto é, na escolha das roupas, na feitura da comida ou nos enfeites utilizados para a decoração. Sua influencia era muito maior no “galpão da peonada”.
_às mulheres maduras (mães de família) ficava reservado o papel de coordenação da casa, comandando as serviçais, inclusive os escravos que exerciam tarefas domésticas. Eram responsáveis pela educação dos filhos, seja religiosa, seja “escolar” – não havia escolas formais – a aprendizagem das letras (ler e escrever) se dava dentro da casa. Eram elas que cuidavam das roupas _ confecção e remendos _ assim como bordados, tricôs, macramé, etc. As técnicas de manejo dos fios era passada de mãe à filha. As mães orientavam a formação do enxoval das filhas e as orientava para a aprendizagem que as tornassem “virtuosas”. Muito comum era o aprendizado de algum instrumento musical. No Rio Grande do Sul, a mulher era compelida a assumir funções que tradicionalmente cabia aos homens, especialmente nos períodos bélicos. Quando os homens iam à guerra, ficavam as mulheres, as crianças e os velhos a cuidar das estâncias. Se seus homens voltassem faziam festa, se não voltavam a rezar e choravam resignadas e faziam promessas para que os filhos não precisassem seguir algum clarim.
_ os jovens, a partir de 12, 13 anos, começavam a ser preparados para o desempenho de tarefas campesinas e de soldados. Quando o pai era artífice (alfaiate, marceneiro, etc). Os meninos eram estimulados a aprender a mesma profissão. A pratica de pai para filho, era quase que uma regra válida para todas as situações. Na lida campesina cabia aos jovens aquelas atividades que exigissem destreza e demonstração de coragem como a doma de cavalos. Os meninos também eram utilizados como portadores de recados, espécie de estafeta, dentro da estância. Aos meninos bastava que fossem valentes, corajosos e dispostos a enfrentar os perigos. Saber ler escrever não era mais importante, porém quando o pai decidia que um filho deveria estudar na Europa ou na Corte, a escolha nunca caía sobre as meninas.
_ as meninas e moças eram preparadas, pela mãe, pelas tias e pelas avós, para serem esposas e mães. Toda a educação era voltada para que a moça fosse virtuosa e que tivesse condições de honrar a família. Nunca tinham autorização para se afastar da casa, a não ser que fossem acompanhadas de um homem de confiança, às vezes um escravo.
A educação formal era muito descurada em toda a Província do Rio Grande do Sul. Os jovens homens destinados à advocacia, à medicina e ao sacerdócio, eram mandados para as universidades em São Paulo. Em Porto Alegre existiam apenas escolas primárias (1830).
As mulheres, as crianças e os jovens não participavam das discussões políticas ou ideológicas. As reuniões, muito comuns seja nas salas das casas, seja nas lojas maçônicas, eram freqüentadas exclusivamente pelos homens.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
O que vai ter nesse blog?

Essa é a pergunta mais frequente entre as pessoas que irão acessar este blog.
Aqui os jovens gaúchos irão encontrar todo o conteúdo de concurso de peões e prendas de CTG e para quem pretende ir para um regional ou até mesmo para um estadual.
Os conteúdos irão vir com explicações jovens e engraçadas com imagens e até mesmo com quadrinhos.
Dentro do possível irá ter o que foi debatido e aprovado nos congressos tradicionalistas, encontros de patrões etc.
Isso tudo vai ser preparado com muito carinho para aqueles que buscam informações sobre a nossa cultura gaúcha, porque eu descobri participando de concursos de piá e guri farroupilha que o mais importante não é o título, é o que se aprende e as amizades que conquistamos e mais o que fazemos com o que aprendemos e eu resolvi dividir.